“Eu verterei o meu sol e você o seu com seus versos”

Sobre a função solar-social do poeta.

SOL: substantivo de origem latina (sōl, sōlis), que remonta, assim como o grego hḗlios e o sânscrito védico sū́rya-, à mesma família lexical protoindo-europeia, associada à forma reconstruída sóh₂wl̥; todos designam a estrela central do nosso sistema planetário; os dois últimos, além disso, nomeiam personificações divinas do astro.

O título dessa newsletter é composto por três versos do poema A extraordinária aventura vivida por Vladímir Maiakóvski no verão na datcha, presente no livro Maiakóvski – Poemas (2019), editora Perspectiva, traduzido por Augusto de Campos.

Surya Narayan por Ravi Varma Press.

Já faz alguns anos que quando escuto a palavra sol, me lembro do referido poema do poeta da revolução, como era chamado.

A experiência narrada por ele traz uma visão que considero muito importante para quem decide seguir a vida como poeta:

Saber dessa posição solar do poeta muda tudo.

Não há estrofe sem significado, verso sem vida, palavra desimportante, ou sílaba sem motivo. Tudo é ferramenta de escrita, nossa foice e nosso martelo.

E é uma função. Prática constante, como Maiakóvski bem defendia.

Isso me parece fundamental, inclusive, pois proletariza nossa categoria. Afinal, escrever é mais do que um ato político, é revolucionário.

Nesse sentido, fica evidenciado o significado social do poeta.

O status do Sol

Pensando nas funções do Sol, podemos dizer que elas são, por um feliz jogo semântico, claras. Uma delas está a representada na carta XIX do Tarô Raider Waite, na qual a ideia da luz emitida por ele está relacionada, dentre outras coisas, à consciência do espírito.

XIX – O Sol, Rider–Waite Tarot; desenhado por Pamela Colman Smith e publicado em 1909.
XIX – O Sol, Rider–Waite Tarot; desenhado por Pamela Colman Smith e publicado em 1909.

No poema de Maiakóvski, a conversa com o ser celestial eleva o poeta ao mesmo status: um ser emissor de luz, com a função de abordar temas que precisam ser expostos e, consequentemente, ampliar a consciência comunitária em relação à sua condição e poder.

O que fica claro com o encerramento do poema:

Tradução de Augusto de Campos, visual de André Luyz, publicado no livro Maiakóvski - Poemas, Editora Perspectiva 2019.
Tradução de Augusto de Campos, visual de André Luyz, publicado no livro Maiakóvski – Poemas, Editora Perspectiva 2019.

A imagem é linda. Para muitos, utópica.

Orbito mais na segunda opção. Ainda que precise e goste de acreditar na primeira.

Além de tudo, é uma tarefa difícil. O próprio Sol reconhece isso no poema.


E eu? Você pensa

que brilhar

é fácil?

Prove, pra ver!


Quem por nós, senão nós?

Foi importante pra mim conhecer a visão do poeta russo e me agarrar nela, pois é isso que me mantém no estado social-solar: o de quem assume a responsabilidade e se dedica ao trabalho.

Quero dizer, se não tivermos o poeta nos lembrando da nossa importância, quem fará isso?

Um político? Um religioso? Não. Prefiro o errante, o confuso, o até mesmo triste, porém humano e solar poeta.

Aquele que grita disparates para o Sol, enfrenta milênios de misticismo e fé, representados nas imagens de Hélio e Surya, para humanizá-lo e nos elevar.

Relevo representando Hélio. Proveniente do Templo de Atena, em Ílion. Datado entre o primeiro quarto do século III a.C. e 390 a.C.. Encontrado durante as escavações conduzidas por Heinrich Schliemann, em 1872. Atualmente integra o acervo do Museu de Pérgamo, em Berlim, Alemanha.
Relevo representando Hélio. Proveniente do Templo de Atena, em Ílion. Datado entre o primeiro quarto do século III a.C. e 390 a.C.. Encontrado durante as escavações conduzidas por Heinrich Schliemann, em 1872. Atualmente integra o acervo do Museu de Pérgamo, em Berlim, Alemanha.

E não se deixe enganar, não se trata de antropocentrismo. Ser solar aqui é uma cosciência social, não universal. A diferença se faz óbvia nas palavras.

Além disso, não há endeusamento nessa proposta. Todos temos um lugar ao sol, ou melhor, todos temos um brilho solar.

Resta-nos apenas isso: brilhar.

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